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Futebol, o tubo de ensaio para os novos fascismos. Uma conversa com Luís Filipe Cristóvão

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Hoje é impossível escapar ao futebol, a essa redução essencial da tragédia a um espectáculo que segrega uma mitologia degradante, cercada de um fervor e de formas de culto alienantes, providenciando uma linguagem que chega a todos, um discurso que invade até o campo da religião, chamando a si termos como catedral, milagre, fé, comunhão, consagração, sagrado, salvação, ressurreição, veneração, inferno, o diabo ou a mão de Deus. À medida que o adepto se torna um fiel, benzendo-se em nome do seu clube, sacrificando-lhe e aos seus ídolos de chuteiras as suas preces, superstições, todos os seus sinais de devoção, por outro lado ganha expressão um regime adversarial através do qual “o medíocre se transforma em herói”, como nos diz Agustina, projectando-se “no furioso trabalho do peito, dos ombros, dos pés”, e resolvendo assim a sua agressividade, que o reduz a uma impotência cada vez maior, a uma cólera que vê na equipa contrária a representação de todos os males, toda a indefinição e bloqueio da sua própria vida. Tudo conspira para que o futebol assuma uma presença que vai muito para além dos estádios, uma ênfase desproporcionada que permite inocular o seu vírus, produzindo nas massas uma reacção coreografada, com as multidões a responderem à chamada, colocando-se em cena e dispondo-se a esse dever do confronto, a essas rivalidades fabricadas, a responderem hipnotizadas ao clarim de guerra. Multiplicam-se por todo o lado os sinais da contemporização face aos excessos a que são levados os adeptos devido ao clima de fervor produzido pelo “ininterrupto matraquear futebolístico do espaço público”, o que conduz a um estado de excepção em que, como sinaliza António Guerreiro, nos submetemos alegremente a essa “continuada violência simbólica, exercida através do empreendimento dos media”. O futebol surge assim como essa “religião laica do proletariado” (Eric Hobsbawn), na medida em que alimenta uma perspectiva de redenção, em que oferece este regime de intoxicação voluntária, com os fiéis deste culto a permitirem-se essa forma de delírio que, por alguns instantes, lhes permite esquecer o desencantamento da vida moderna, lendo nos caracteres do fenómeno futebolístico espalhados por toda a parte uma articulação para essas aspirações heroicas, uma sentimentalidade e emoção exacerbadas num confronto de alienados. E é esse delírio que permite que tudo seja permitido, e a corrupção se instale e normalize. Assim, à boleia dessa benevolência, a violência é normalizada, o ódio vê-se banalizado e torna-se um elemento chave que permite animar fórmulas de populismo, os nacionalismos xenófobos, os regionalismos atávicos e outras formas de ódios identitários ou racistas, originando “uma regressão cultural generalizada”. Marc Perelman defende que este tem permitido uma inversão das posições políticas tão profunda que, actualmente, “o chauvinismo e o nacionalismo engendrados pelo futebol já não são denunciados, mas postos em evidência como manifestações de uma revitalização dos povos”. Assim, vemos serem encenadas manifestações que nos transportam para uma nostalgia do fervor totalitário, um eixo de representações que preparam as condições para um fascismo de sorte alienante que serve para distrair inteiramente os homens do seu destino. Para nos oferecer alguma perspectiva e também para aprofundar ou reenquadrar algumas destas ideias, neste episódio contámos com a experiência e o conhecimento de campo de Luís Filipe Cristóvão, escritor que teve em tempos actividade como livreiro e editor, e que hoje é jornalista e comentador desportivo. A partir de um espaço mediático densamente povoado pela linguagem do futebol-indústria, Cristóvão tem procurado valorizar a dimensão comunitária e associativa do futebol, bem como arriscar a mobilização de um olhar sobre o jogo que procure pensar e problematizar as suas relações com a organização social e política.

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