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O regresso dos vilões à política. Uma conversa com Miguel Faria Ferreira

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É das poucas liberdades exaltantes que ainda nos restam, a de nos demorarmos a divagar rente às feridas e às transformações, e de nos desfazermos de inúteis particularidades para mergulharmos no que é comum. Também os homens formaram bandos, numa firmeza de assalto capaz de fazer da realidade outra coisa, e houve aqueles que só entendiam a sua força enquanto partículas elementares: "Nós nascemos vários e morremos um só." É um ideal que soará demasiado estranho aos deste tempo, mas restam ainda sinais, trechos crepusculares num registo delirante, testemunhos que persistem nos muros expectantes, erodidos pelas paixões mais graves. Aí podemos ler listas de herdeiros e inimigos que foram assentando esses notários inconscientes. A conversação é a única forma de arte que nos lança na direcção do que é comum, e temos então essa tarefa de conspirar como quem trabalha numa inteligência rumorosa, cumulando experiências, ultrapassando o desastre do isolamento, todos esses constrangimentos sociais que funcionam como subtis formas de repressão. "Naturalmente não é a primeira vez que os homens se vêem perante um futuro materialmente sem saída", lembrava Camus, mas se tinham essa voz comum que lhes permitia dispersar certos receios, se os desafiavam através da palavra e do grito, hoje a nossa fragilidade vem precisamente de nos faltar um caminho para essa relação mais aberta, nutrindo-se desse vigor ardiloso. Diz-nos Camus que estes homens "apelavam para outros valores, que lhes transmitiam esperança". Pelo contrário, "hoje, já ninguém fala (a não ser os que se repetem), porque o mundo nos parece guiado por forças cegas e surdas, incapazes de ouvir os gritos de alerta, os conselhos ou as súplicas. Algo em nós foi destruído pelo espectáculo dos anos que acabámos de passar. E essa coisa é a eterna confiança do homem, que sempre lhe fez crer que podia obter de um outro homem uma reacção humana, desde que lhe falasse a linguagem da humanidade. (...) Vivemos asfixiados no meio de pessoas que crêem ter absoluta razão, seja nas máquinas, seja nas ideias que têm. E para todos os que não podem viver privados de diálogo e de amizade humana, um tal silêncio é o fim do mundo.” Por isto mesmo, por sermos frágeis, e por nos recusarmos a tentar tirar sentido de uma sucessão de acidentes, e assumir um orgulho patético por uma individualidade que se distingue dos outros por ninharias, falamos, revezamo-nos ao longo da muralha. A verdadeira resistência começa pelo mais simples, por se recusar a integrar esse logro em que vão sendo promovidos certos indivíduos, lacerados, exilados, condenados, tentando sobrepor-se aos seus conflitos e à sua solidão perseguindo a louca imagem da unanimidade. Têm necessidade dela para substituir os sinais que não foram inscritos na sua carne, os hábitos que não lhes foram dados, os caminhos que não foram abertos para eles, em resumo, para viver. Precisamos desse outro excedente da espécie humana, dessas improvisações fulgurantes que vão reescrevendo uma antologia perpétua das melhores noções ao nosso dispor. Neste episódio contámos com a disponibilidade de Miguel Faria Ferreira, um tipo que sabe das leis o suficiente para se alforriar e ir contemplar o outro lado da vida, um viajante que tem buscado conhecer o que é do mundo para lá desse regime mais linear e frívolo dos que julgam escapar à sua insignificante pessoa exibindo repugnância por tudo quanto lhes parece estranho.

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